OS CAVALOS VÃO PARA O CÉU?

 

        Todo mundo tem um cavalo inesquecível, não é mesmo? Pois é, também sou filho de Deus e tive o meu. Seu nome era Thor. Ele me acompanhou durante alguns anos, durante aquela fase em que o adolescente se vai e o homem chega.
        T. era PSI, castanho, nascido em setembro de 79, muito "limpo", mas um refugador de talento...jamais derrubava um obstáculo...mas o cavaleiro... Ah, isto derrubava sempre! O tombo mais ridículo que me deu - meados dos anos 80 - foi no velho rio da pista de areia do CHSA, que era mais profundo, mas muito mais profundo, do que o atual. Coisa de parar de repente e eu, ingênuo, sair voando... "Plooft!!" Tava lá eu submerso...coisa ridícula. Voltei para a superfície e vi os dentes de todo mundo....gargalhada geral. Quando comecei a andar, a água saía pelas botas, "splachft, splachft". Na época, na regra antiga, o primeiro tombo dava oito pontos (fora alguns "galos") e dava para retomar o percurso. Assim, molhado e ridículo, parti de novo para o rio....novo refugo... e estava eu voando pela segunda vez, agora, com a cabeçada na mão...
        Mas nem só de pão amanhecido vive o homem, tive meus dias de alegria com Thor, também. Como era bom poder soltar Thor no campo de pólo (o que era possível naqueles tempos). Contando é até difícil de acreditar....Fazíamos uma brincadeira de pega-pega, como se Thor fosse um cão ou, antes, uma criança. Eu corria atrás dele, ele me deixava chegar perto e, de repente, saía corcoveando, escoiceando o ar, parava e se virava, correndo para cima de mim; eu, então, passava a ser a caça e saía correndo em ziguezague.... Engraçado, nada disso hoje seria possível, as regras estão mais rígidas, cada vez há menos espaço para a criança que vive em nós.
        Outra vez, 1984 se não me engano, saí de um baile de carnaval no clube Pinheiros, bêbado feito uma vaca, acompanhado de uma Colombina que conhecera na hora....não me lembro o que houve com a garota....sabe como é, né?! "Cuba-libre", lança-perfume e cerveja...combinação perigosa. Lembro, isso sim, quando comecei a ser cutucado de leve pelo tratador de Thor, "seu" Quincas, enquanto eu ía acordando aos poucos e o tratador, surpreso, perguntava o que eu tava fazendo dormindo dentro da baia...quem já amou um cavalo sabe que isto é possível.
        A última vez que vi Thor jamais esquecerei. Dia 10.07.1988.
Eu passava por uma fase complicada, aquela em que nos questionamos demais, procuramos as respostas para os Porquês da alma. Tinha brigado com uma namorada de já uns três anos; de repente, por causa das questões do coração, eu ía cada vez menos ao clube, cada vez era menor a vontade de montar. Fiquei uns quinze dias sem montar, sem aparecer, abandonando o amigo Thor ao “picador”, por completo. Estava por demais preocupado comigo, para lembrar de Thor; "ele que se virasse", pensava eu.
        Na sexta-feira, 08.07.88, minha "ex" me procura e, "doucement", fala em voltar. Homem é bicho burro, apanha e não aprende...
Feliz, fui viajar com ela... para o haras de PSI de uns conhecidos, em Piedade, interior de S. Paulo. Da viagem pouco me lembro, parte fiquei feliz, parte triste, com aquele gosto na boca de quem sabe que o vinho chegou, em definitivo, ao fim.
        Domingo de noite, voltando de viagem, encosto o carro na garagem dela, subo para a sala, com um sentimento pesado no peito...Cid Moreira ao fundo, no "Fantástico", falava de mais uma vitória de Ayrton Senna, GP da Inglaterra, sob chuva. Toca o telefone. Do outro lado da linha, meu pai, curto e grosso diz: "O Dr. Thomaz Wolff telefonou lá da hípica...cólica... é melhor você dar uma chegada..." É engraçado como pensamos em coisas surpreendentes nessas horas, eu tinha um sentimento de culpa doído, por ter abandonado meu amigo tanto tempo...uma auto-recriminação, como se fosse eu o causador do problema.
        Cheguei ao clube por volta das 22.30h, portão fechado...buzinadas...portão aberto....ninguém na secção....vou direto para a veterinária. Encontro o enfermeiro Jobelino na porta de uma das baias da veterinária. Ele me vê, olha para o outro lado. Chego na porta da baia, olho para Thor deitado, na posição típica dos cavalos que tentam se levantar: Anterior esquerdo flexionado e direito estendido, cabeça ereta, olhos abertos, já sem brilho, só faltava aquele impulso para se por de pé... Imóvel estava e nesta imagem imóvel o trago na memória. Devo ter ficado uns cinco minutos abraçado a ele, soluços e palavras se misturando, até que chegou o Thomaz e falou qualquer coisa e a Vida, a minha, seguiu em frente.
        De volta para o carro, pondo as idéias em ordem, ligo o rádio. Tocava, já no final, a música "Viagem" de uma cantora esquecida, Marisa, que nos últimos versos dizia:

"...vou no alazão da noite,
cujo nome é raio,
Raio de Luar".

        Difícil de esquecer essa música.
        Jamais amei outros cavalos de novo, gostei de alguns, sim, mas amar, nunca mais!
        Não quis rever a antiga namorada. Mulheres não combinam com cavalos, estes têm uma inesgotável capacidade de sacrifício e doação.

DUÍLIO - SÃO PAULO