MINHA CAMÉLIA

 

       Comecei a montar aos três anos de idade. Não é preciso dizer dizer que sempre gostei de cavalos. Hoje estou com quatorze anos, competindo em provas de hipismo rural há cinco. Acho que todo o cavaleiro tem uma história para contar, algo que bateu fundo, que fez vir à tona essa tal paixão pelos cavalos. No meu caso, a história aconteceu assim:
     Certa vez, o proprietário de um grande criatório me chamou para trabalhar e montar quatro de suas éguas Crioulas. Logo de cara me identifiquei com uma delas, a Camélia. Desde o início, a afinidade e a interação foram muito grandes. A Camélia sempre foi especial sim, ela já tinha bastante idade e trabalhava como ninguém, dava um "olé" em muito cavalo novo. Passei então a ganhar muitas provas com as éguas, em especial com a Camélia. Ela se sobressaía, saía vitoriosa em competição com várias raças. Parou a campanha por algum tempo, teve suas crias e voltou a competir. E, ainda hoje, com treze anos, continua com força total.
      Essa égua era o xodó do haras, tanto do treinador, como do proprietário da Estância. Eu estava diariamente com ela e, cada vez mais, nossa convivência se fortalecia em confiança, amor e admiração. Não entendi bem a razão, mas um dia me avisaram que a Camélia iria ser colocada em um leilão. Fiquei transtornado, não queria acreditar, e ao mesmo tempo não podia deixar de pensar o tempo todo no assunto. Passei uma semana como se estivesse entorpecido, anestesiado. Não conseguia segurar as lágrimas que vinham constantemente em meus olhos.  Tudo era motivo para arrumar uma encrenca, discutia com as pessoas sem razão. Na minha cabeça não cabia a idéia de me separar da Camélia. Nada poderia justificar a sua venda, a passagem daquela égua para outras mãos que não as minhas.
     No dia do leilão, logo que cheguei da escola, nem almocei, fui direto para lá. Eu precisava me despedir. Quando encontrei o treinador com ela, me deu um aperto no coração e nós três choramos. Fiquei a tarde inteira ao lado dela. Apresentei a minha amiga em conformação, ajudei a cuidar e preparar para o leilão. Meus pais tentaram me tirar de lá, me levar para casa, mas eu não podia, eu tinha que ficar.
     Levei a Camélia até a entrada do picadeiro e sussurrei ao seu ouvido: "Você é minha companheira muito querida. Nada vai poder mudar isso." E fui para fora, eu e um peso enorme apertando meu peito. Mesmo sem querer, ouvia os lances, um após o outro, a voz do leiloeiro, o som abafado dos entusiasmados compradores. Quem iria comprar a Camélia? Será que a tratariam com carinho e respeito que ela merece? De repente o leiloeiro bateu o martelo. Mesmo distante do picadeiro, aquele som me chegou dolorosamente.
     O dono da Camélia pegou o microfone do leiloeiro e disse que tinha jurado para si mesmo que aquela égua iria ficar no haras até os seus últimos dias, mas que infelizmente teria que entregá-la, gostaria de chamar um menino, que teve muitas alegrias com ela, e que agora deve estar em algum lugar por aí chorando. Nesse momento, as coisas aconteceram muito rápido, quando dei por mim já estava no picadeiro, de cabeça baixa, sem olhar para ninguém Ouvi o dono da Camélia dizendo:
- "Eu sei que você já teve muitas alegrias com ela, que se identifica com essa égua, mas tenho que entregá-la hoje, entregar a você, porque ela é sua."
     No mesmo instante em que ouvi a palavra "sua", montei na Camélia, me debrucei no seu pescoço e fiquei nesse abraço. Agora as lágrimas eram de alegria. 

MARA S. IASI