CAVALOS E SONHOS

 

       SRS.,

      Vivi minha infância e parte de minha juventude próximo de animais domésticos. Meu pai, um leiteiro por vocação, não permitia que tivéssemos cavalos, pois dizia que um cavalo comia por três vacas. É...tinha razão!.
     Cresci apreciando os cavalos dos vizinhos. Em 1994, por indicação de um criador, Felismino Augusto de Souza, fui conhecer melhor o "Andaluz". Como já conhecia o Viviani, procurei-o, visto que o mesmo havia importado cavalos da Andaluzia. E, nesse contato, fui agraciado com um Garanhão. Lindo...o mais belo olhar eqüino possível de ser visto. Cavalo de proporções maravilhosas. Sua cauda e sua crina, inacreditavelmente belas. Temperamentalzinho, é verdade, porém gostava de ser montado. Tinha orgulho, fleuma, gana, coragem, confiança. O que era aquilo? Onde teria ido buscar tanta beleza, tanta altivez. Montado, desfilava! Gostava de se mostrar. Era um artista nato! Às palmas, "engajava"...crescia! Ah! Fiquei embevecido, cai na tentação.         Comecei a criar. Primeiro uns meios-sangue. E por que não puros? Meti as caras. A paixão era imensa. Era preciso tomar cuidado com a empolgação. E dá? Minha propriedade não estava e, é bom que se diga: ainda não está preparada para criar cavalos. Mas, toquei em frente. O cavalo sempre na dianteira. Eu, sempre na rabeira, correndo atrás para cumprir as exigências que a criação impunha. Li muito, estudei muito, aprendi muito (não tudo). Pesquisei sobre o cavalo, viajei. Fui a Portugal. Corri criatórios lá e cá. Tudo lindo, cada vez mais belo e eu cada vez mais empolgado. Animais maravilhosos. Esculturas vivas! Isso, tá certo o Jaime Monjardim. Ótima definição. E eu, firme, querendo produzir dessas esculturas. Cavalo em dia de Rei! Nada disso...mais que isso, a coroa deveria ser dele. Com certeza a mais bela criatura que Deus pôs na terra.
       Bem, lá fui eu! Comecei a freqüentar os leilões da raça. Me metia no meio de criadores quando havia apresentação dos animais a serem leiloados. Ouvia os comentários, palpites previsões, etc... Aí, marcava os animais que me interessavam. O resto, era resolver o dinheiro e escolher, segundo meu juízo de beleza, os animais que tentaria arrematar.
       Fui feliz algumas vezes, outras não. O saldo foi positivo. Sobrou-me a Dandapuê do Xapuri. Deu-me um belo potro, zaino, que em homenagem a Buenos Aires, chamei-o Portenho. Ah! Portenho da Arrulha. Que orgulho! Já tinha um sufixo e uma marca. Arrojei-me. Coloquei um nome: Criatório Cabanha Arrulha. Bah, tchê! Outra homenagem: para meus amigos do sul. Indubitavelmente os maiores cultores de cavalos deste Brasil.
       Veio a Caçula da Estrela, o Orvalho HB, a Ousadia, o Outono da Sta. Helena, a Piaba das Pitangueiras, o Querosene, o Potássio, a Novidade das Videiras, a Neblina do Mirante, a Quelé, a Zamorana, a Rapióca (ainda produz com 25 anos), a Princess Itapuã, a Oquira JHF, a Paloma JHF, o Pluto do Retiro, a Ervideira JB, a Objetiva do TOP, a Onunpuê do Xapuri, o Remelexo, a Recoleta (aí ó...outra homenagem à minha Buenos Aires querida),o Sarrabulho, o Sarraceno, o Saramago, o Santarém (taí...um viva aos nossos Patrícios!), a Sapeca, o Sheik Imagem, o Soberano, o Tocacho, o Torondor Interagro (recém adquirido, que certamente será o garanhão do ano 2004! Não se preocupem, vou vender cruzas dele...) Agora, mais recentemente, a Uruguaia (mais uma homenagem) e, por enquanto o Utente. Vem mais!
         Enfim, todos lindos, maravilhosos, falando a mesma língua do dono. Tudo com amor, carinho, dedicação. Entretanto, apesar de tudo isso, me vejo forçado a vender algumas de minhas preciosas esculturas. Com muita tristeza, pois cada um a seu modo ocupa um pedacinho de mim. Coloco-os a disposição daqueles que apreciam uma obra de arte!

EDUARDO CALDAS REBOUÇAS
Criatório "Cabanha Arrulha"
SÃO PAULO - SP