Álvaro Affonso de Miranda Neto, o Doda, começou a praticar equitação aos oito anos de idade no Clube Hípico de Santo Amaro. Aos 22 anos mudou-se para a Bélgica para treinar com Nelson Pessoa. Hoje, aos 38 anos, vive um dos melhores momentos de sua carreira sendo o melhor cavaleiro brasileiro no ranking da FEI onde ocupa a 16ª posição, só este ano venceu mais de seis Grandes Prêmios e é medalhista Olímpico, Pan-americano. Além de atleta o cavaleiro é o idealizador do Athina Onassis Horse Show, concurso cinco estrelas que traz para o Brasil os melhores cavaleiros do mundo.

 

Horse World Brasil: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória no hipismo. Onde começou, com que idade e incentivado por quem?
Doda Miranda:
Eu comecei a montar no Clube Hípico de Santo Amaro (CHSA), em 1981, incentivado por meu pai. Meu pai é filho de militar da Infantaria, sempre gostou muito de cavalos e sempre procurava montar em Andrade Neves, no Rio de Janeiro, na Cavalaria. Mas meu avô era major e não tinha muito dinheiro e por isso não podia oferecer a ele, nem mesmo, o equipamento necessário para montar. Por esse motivo, o meu pai foi o meu grande incentivador. Quando eu estava com nove, dez anos ele já tinha condições de me colocar em um Clube Hípico, onde eu comecei, em Santo Amaro, SP, com o Mathias Rodrigues da Silva que foi o meu primeiro professor.

H.W.B: Todo mundo conhece você como “Doda” de onde surgiu esse apelido?
D.M:
Esse apelido foi meu pai que me deu, ainda pequeno, aos dois anos de idade. Eu não sei o motivo, mas acho que era alguma coisa que eu tentava falar e não conseguia e como saía algo parecido com “Doda”, ficou!


Doda e Aspen nas Olimpiadas de Atlanta 1996

H.W.B: Quem são seus ídolos dentro e fora do hipismo
D.M:
No hipismo meu ídolo é o Nelson Pessoa. Eu o considero um cavaleiro excepcional, ele é um homem do cavalo, um apaixonado pelo cavalo. Ele sempre pensa no cavalo, não como uma máquina, mas como um ser vivo e eu acho que as grandes facilidades que a gente tem hoje em dia se devem a ele quando, há muitos anos atrás, foi para a Europa de navio e rompeu essa barreira permitindo que o Brasil pudesse ter, hoje, o destaque que tem. Por todo o seu talento e genialidade, como profissional, é o meu escolhido. O Brasil tem cavaleiros excepcionais, eu tenho vários ídolos, mas fora das pistas o meu grande ídolo é meu pai.

H.W.B: A partir de quando e por que você decidiu tornar-se um profissional do hipismo?
D.M:
Quando comecei a montar todo mundo pensava que seria um hobby na minha vida, inclusive meu pai que sempre foi meu maior incentivador. Só que era incrível, porque todos competiam para brincar e eu somente queria ganhar e como a gente sempre perde muito mais do que ganha. Isto me deixava muito bravo, mas com o tempo fui aprimorando minha equitação, principalmente o trabalho de adestramento de meus cavalos, até que aos dezesseis anos depois de consagrar-me bi campeão brasileiro de Júnior e tri campeão brasileiro de Young Rider, pedi a meus pais se poderia parar os estudos para me tornar profissional. Obviamente que eles não permitiram e somente aos 18 anos, mesmo não tendo terminado o colegial, decidi (contra a vontade de meus pais) dar um tempo nos estudos, mas comecei a estudar inglês todos os dias.


Medalha de bronze por equipe nas Olímpiadas de Atlanta:
Luiz Felipe de Azevedo, André Johannpeter, Doda Miranda e Rodrigo Pessoa

H.W.B: Você mudou para Bélgica aos 22 anos (1995), onde treinou durante quase 10 anos no manège dos cavaleiros Nelson e Rodrigo Pessoa. Como você avalia essa experiência?
D.M:
Sem dúvida esta foi a melhor coisa que fiz para evoluir no esporte, como também para me tornar um homem do cavalo, ou seja, respeitar o animal acima de tudo e de qualquer circunstância. Considero que para preservar o bem estar de seu cavalo, caso ele não esteja muito bem, vale o sacrifício da vitória.
Eu devo todos os meus resultados a várias pessoas que me deram instrução: Mathias Rodrigues da Silva, Cel. Renyldo Ferreira, Marcello Artiaga, Carlos Henrique Zilman (Pule, é o apelido dele), Vítor Alves Teixeira com o qual participei de doze clínicas no Cepel e finalmente, ao mudar-me para Europa, mais precisamente para Bruxelas, ao Neco e ao Rodrigo Pessoa que proporcionaram um grande avanço na minha trajetória.
O mais legal deste esporte é que quanto mais você acha que sabe, mais entende que não sabe. É fundamental que nunca deixemos de nos atualizar, pois o caminho para o sucesso só será alcançado com uma busca incansável e infinita de novos conhecimentos

H.W.B: Atualmente onde você está montando e como é o seu dia a dia?
D.M:
Eu monto no centro de Treinamento da A&D Sports Horse, em Valkenswaard, na Holanda. Passo em média oito horas trabalhando os cavalos e treinando para as competições. Normalmente de quinta à Domingo eu estou nas competições.


Doda e AD Ashleigh Drossel Dan vencedores do GP de Doha

H.W.B: Quais são os seus principais cavalos e com qual deles você pretende representar o Brasil nos Jogos Pan-Americanos e nas Olimpíadas?
D.M:
Meu principal cavalo hoje é o AD Ashleigh Drossel Dan, com quem já obtive resultados incríveis este ano, como o GP do GCT, em Doha, o GP de Bordeaux e de Basel e é a montaria que eu pretendo disputar as principais competições do ano. Para os Jogos Pan Americanos tenho 4 opções que são o próprio Dan, o Ad Norson, o AD Wilbert, que neste ano venceu o GP de San Remo e uma das provas do Saut Hermes em Paris e o AD Tomboy, todos com possibilidades de me dar a chance de representar meu pais nos Jogos Pan-Americanos.

H.W.B: Profissionalmente 2011 está sendo um excelente ano para você. Você venceu três dos cinco GPs que participou sendo um deles a etapa de abertura do Global Champions Tour, em Doha. Fale um pouco sobre a primeira etapa do Global Champions Tour.
D.M:
Sem dúvida, este início de temporada tem sido espetacular, tenho conseguido estar no pódio em praticamente todas as principais competições até agora. Meu principal objetivo é manter a forma para representar o Brasil nos Jogos Pan-Americanos do México e lutar pela medalha de ouro.
O GP de Doha foi super importante porque era a primeira etapa de um circuito que tenho como um dos principais objetivos da minha carreira neste ano de 2011.
O AD Ashleigh Drossel Dan está numa fase excelente e depois de ter conseguido formar um bom conjunto com ele no ano passado acredito que estamos prontos para as principais competições de 0211.
O GP de Doha estava super difícil e o fato de ter batido a Meredith Beerbaum com o Shutterfly, um dos conjuntos mais premiados do hipismo na atualidade me deixou ainda mais contente e motivado para as próximas provas.

H.W.B: Você foi um dos idealizadores do Athina Onassis International Horse Show, concurso que traz para o Brasil os melhores cavaleiros e amazonas do mundo, que colocou o Brasil no circuito mundial e que carrega o nome da sua esposa. Como surgiu essa idéia?
D.M:
O Brasil já era reconhecido internacionalmente pelo talento e resultados dos seus cavaleiros, mas ainda estava longe de ser respeitado como organizador de eventos hípicos. O Athina partiu do sonho de colocar o meu país dentro do calendário hípico mundial, com um evento cinco estrelas, o primeiro realizado na América Latina. Para mim, foi um desafio poder trazer ao Brasil os principais nomes do hipismo no mundo, pois sempre achei que ter os ídolos por perto é uma ferramenta importante para o desenvolvimento do esporte, atraindo mais crianças e jovens. Alem disso toda a minha equipe conseguiu formar um projeto bem maior que o esporte e que acabou trazendo para o hipismo uma visibilidade nunca vista antes. Temos uma plataforma de entretenimento através do esporte que hoje se consolidou como uma das mais importantes da América Latina.
O nome da Athina no projeto foi fundamental para esta consolidação e credibilidade junto às marcas que acabaram se tornando nossas parceiras, tais como a OI, a Coca-Cola, a Petrobras, a Kia, a Pamcary, a Gerdau, o Fashion Mall e tantas outras.


Doda com a esposa Athina Onassis de Miranda

H.W.B: Como estão os preparativos para o Oi Athina Onassis International Horse Show deste ano?
D.M:
O OI ATHINA ONASSIS HORSE SHOW é um evento que dura doze meses. Acaba uma edição e já começamos a planejar a do ano seguinte. Este ano vamos para a quinta edição e é sempre um desafio para nós. A cada ano, temos que superar as expectativas, que sempre são altas em torno do evento. A equipe já está trabalhando a todo vapor e estamos caminhando para os preparativos finais.


Doda com a filha Viviane

H.W.B: Para finalizar qual foi a maior lição que você aprendeu com o hipismo e que mensagem você deixaria para cavaleiros e amazonas que estão iniciando na equitação e almejam chegar um dia aonde você chegou?
D.M:
Eu acho que o esporte é uma ferramenta completa na educação e na formação do cidadão. Desde cedo, aprendemos a lidar com valores como disciplina, determinação, foco e humildade. Um dia você ganha e no outro você perde. Lidar com estes antagonismos, com estes sentimentos desde cedo faz com que você amadureça muito. O maior ensinamento que o esporte me deu é de que temos que sempre acreditar nos nossos sonhos e ir em busca de realizá-los.

BATE BOLA:

Uma qualidade: Determinação.
Um defeito: Pouco paciente.
Alegria: Medalha olímpica.
Filme: O Gladiador.
Superstição: Usar algumas peças de roupa e outras superstições menores, mas nada que me atrapalhe.
Um sonho: A medalha de ouro individual nas olimpíadas.
Quem é Doda: Uma pessoa determinada.


Agradecemos a Doda Miranda por ter nos concedido esta entrevista e desejamos
muito sucesso dentro e fora das pistas.

* Entrevista realizada em maio / 2011. Fotos: Alexandre Vidal, divulgação e Stephano Grassi.