Nascido em Tatuí, Mauro foi criado dentro de um haras, seu pai trabalha com cavalos (BH, Lusitanos, etc) há mais de 30 anos. Começou a trabalhar cavalos BH para enduro, obtendo resultados significativos no preparo físico necessário dos animais treinados por ele dentro das competições da modalidade. Quando tinha 09 para 10 anos o patrão de seu pai pediu para que ele fosse o responsável pelos pôneis. Mauro montava, escovava e cuidava dos cavalos para um cliente. Entre 10 e 14 anos Mauro passou a se dedicar ao futebol, pois sonhava em ser um grande jogador de futebol, mas após descobrir que este sonho não seria muito viável retornou aos cavalos. Nesta época conhecia muita gente do Haras Villa do Retiro e alguns meses antes do Leilão a Villa do Retiro precisou de staff para preparar os cavalos para o evento e Mauro foi chamado para trabalhar limpando, cuidando de baias e dando comida aos animais. Após o Leilão, o Haras o empregou e este passou a ser o primeiro emprego de Mauro. Esta experiência durou cerca de cinco anos, sendo os dois primeiros como tratador. No terceiro ano começou a ter as suas primeiras oportunidades e aprendeu a arte de guiar cavalos, iniciando na parte da Doma. Os cavalos domados eram vendidos ou iam para o treinamento então Mauro começou a competir na Escola Português participando das provas oficiais de Adestramento. Algum tempo depois um comprador de Lusitanos propôs a Mauro treinar os cavalos que estavam à venda nos Estados Unidos e lá permaneceu por 6 meses, chegando a competir em provas internas. Quando voltou ao Brasil foi trabalhar no Rancho Ilha Verde, contratado como cavaleiro do Haras. Depois de alguns anos, começou a dar aulas em suas folgas no Haras Juliana e alguns meses depois o Haras Juliana convidou Mauro para ser o cavaleiro principal, tendo um projeto de crescimento e de desenvolvimento da raça Lusitana muito interessante e por uma história muito interessante houve um perfeito casamento entre Mauro e Tulum no Haras Juliana.

 

Horse World Brasil: Você foi convocado para integrar a equipe brasileira de Adestramento que representará o Brasil nos Jogos Pan-americanos este ano. Quais são as suas expectativas com relação a equipe?
Mauro Júnior:
Esperamos que a equipe tenha um bom desempenho para que todos possam alcançar o tão almejado sonho: Uma medalha e a vaga para a equipe brasileira nos Jogos Olímpicos de 2012.
Para mim, em especial, esta será a primeira participação em jogos internacionais, ainda com um cavalo que muitos não davam valor. Também é especial por provar que o trabalho a longo prazo que sempre pregamos como ideal e sempre colocamos em prática, com muito carinho, cuidado e sempre respeitando o cavalo tanto com sua idade, quanto com sua maturidade e preparo físico dá certo e sempre resulta em bons resultados.

H.W.B: Onde você está treinando seu cavalo (Tulum Comando SN) e como é este treinamento?
M.J:
O cavalo está sendo treinado no Haras Juliana, que está passando por um momento de transição e agora é um Centro de Treinamento de Adestramento Clássico que tem como responsáveis meu irmão Cristiano e eu e contamos ainda com uma equipe criteriosamente escolhida. O treinamento utilizado aqui é baseado em escolas de treinamento de grandes mestres internacionais, como por exemplo: Johan Zagër, Dominique Barbier, Eric Lette, entre outros. No momento, o técnico da seleção colocou metas a serem atingidas por todos os conjuntos da equipe, individualmente. No momento, portanto nosso foco é alcançar as metas definidas por Eric Lette e nos prepararmos para fazer uma bela apresentação durante os Jogos Pan Americanos de Guadalajara.


Mauro Pereira Junior com o Lusitano Tulum Comando SN

H.W.B: O Haras Juliana terminou sua criação e agora você pode construir o seu Centro de Treinamento nos próprios deste antigo criadouro. Agora temos um Centro de Treinamento para cavalos de Adestramento e você é o responsável deste local, desde a manutenção das baias até o treinamento dado a cada cavalo. Conte-nos um pouco como funciona e como é o preparo dos cavalos para as pessoas que quiserem competir e treinar com você.
M.J:
Neste centro do treinamento todos os cavalos são bem vindos. O trabalho sempre será executado com base em alguns pilares fundamentais: Idade, Morfologia, Maturidade, Tempo de Treinamento e objetivo de seu proprietário/cavaleiro. Na verdade, será focado o objetivo do conjunto e será traçado um plano de trabalho para o desenvolvimento de cada etapa. O objetivo deste plano de trabalho é obter resultados da melhor forma e consequentemente ter uma maior pontuação e um maior número de premiações em competições tanto estaduais como nacionais e internacionais. No início é feito um trabalho de guia, seguido de um trabalho de chão, ou seja, um trabalho para que o cavalo mostre as suas qualidades, suas dificuldades e que o treinador, cavalo e cavaleiro entrem em harmonia em uma mesma linguagem. Todas as raças são bem vindas e todos os níveis serão treinados, desde a doma até o estágio mais avançado de treinamento. O Centro de Treinamento está montado com uma equipe altamente especializada e treinada para seguir os ideais e formas de treinamento desenvolvidas por mim, mesmo que um ou mais membros da equipe estejam em competições fora do Centro de Treinamento.

H.W.B: O Tulum, sua montaria, foi uma grande surpresa para todos os meio este ano. Conte-nos como treinou este cavalo, quando você começou e um pouco da história de vocês dois.
M.J:
Quando viemos para o Haras Juliana inicou-se uma busca por uma linhagem de Lusitanos para Adestramento, isto significava cavalos fortes, grandes, potentes e com uma boa genética. Então, nesta busca chegamos ao Haras Comando SN. Tulum nasceu no Haras Comando SN. Então a proprietária deste Haras mostrou-nos um cavalo que era invendável: Tulum. Este cavalo passou por vários treinadores, e desde os 03 anos já chamava atenção por ser tão novo com um porte invejável e andaduras maravilhosas, tendo sido o seu início de carreira dentro da Sociedade Hípica Paulista. Então, devido ao treinamento precoce e muitas coberturas feitas para dar continuidade a sua genética, Tulum teve alguns problemas de saúde que foram todos resolvidos. Porém isto fez com que o Tulum fosse para o Haras e voltasse para as Hípicas principais de São Paulo (Sociedade Hípica Paulista e Clube Hípico de Santo Amaro) algumas vezes, até que acabou ficando um tempo grande no Haras para procriação. Então na visita que fizemos ao Haras Comando SN, encontramos Tulum na baia voltando a ser treinado para competições porém, como já contamos, segundo a dona do Haras, o cavalo era invendável. Como a linhagem deste Haras é muito boa, o Haras Juliana resolveu investir nos filhos de Tulum. Durante estas negociações houve uma ligação inesperada: era a proprietária do Comando SN oferecendo o Tulum para que o sonho idealizado pelo Haras Juliana se tornasse realidade. Então no final de 2007, Tulum chegou no Haras Juliana e começamos a trabalhar juntos. Para iniciar fizemos um planejamento que era: iniciar o treinamento do zero, voltando para o trabalho de guia, chão, bridão e trabalho direcionado para a base com transições de andaduras e postura correta do cavalo dentro de uma boa moldura, para então voltar às pistas da forma como este cavalo realmente merecia. Aconteceu que com o carinho e dedicação Tulum se revelou um grande e excepcional companheiro. Com isso Tulum acabou ganhando todas as competições na Série Média II com um percentual muito acima do que ele tinha obtido com outros ginetes terminando a temporada de 2008 invicto. Pelo nosso planejamento em 2009 e 2010 Tulum deveria estrear na reprise São Jorge e ficar craque nesta competição e então chegar na Seletiva para os Jogos Pan Americanos em 2011 na ponta dos cascos. Porém o destino mais uma vez revelou-se ingrato, no começo de 2009 apareceu uma trinca no casco de Tulum o que resultou em dois meses de descanso veterinário para o casco crescer saudável. Quando ele voltou a trabalhar percebemos que Tulum estava bem irregular no posterior esquerdo. Consulta vai, consulta vem, veterinário vai, veterinário vem, a irregularidade aumentando, diminuindo sem achar uma solução, conclui-se que o problema era no curvilhão. Então após inúmeras reuniões, pesquisas e estudos resolveu-se operar Tulum com um veterinário holandês especializado em articulações equinas. Após esta cirurgia Tulum precisou ficar sete meses dentro da baia sem poder sair para passear. Nestes sete meses Tulum só saía da baia para duchas frias três vezes ao dia. Em agosto de 2010 a equipe veterinária o liberou Tulum para reiniciar, novamente do zero, seu treinamento para a volta às pistas. Porém era necessário muita calma, cautela, cuidado e paciência. Graças a dedicação de todos da equipe, com quatro meses de trabalho, começamos a incluir nosso método de trabalho no dia a dia de Tulum e com isso fomos gradativamente pedindo sempre um pouco mais do cavalo já pensando nas Seletivas do Pan que se iniciavam em março de 2011. Portanto, em oito meses de recuperação, Tulum teve que superar todos os problemas e se apresentar estreando na série São Jorge. Esta estréia com certeza ficou na memória de todos que estavam ao nosso lado na luta deste cavalo. Neste dia tão esperado Tulum terminou em segundo lugar, com um percentual de 66,800%. Para surpresa de todos que frequentam o meio esta estréia não foi apenas uma prova, acabou sendo uma das maiores alegrias da vida de todos da equipe. Não foi apenas uma competição. Todos estes meses de luta, coragem, dedicação e perseverança tinham um motivo nobre à se mostrar alguns meses depois. O resultado de tanto carinho, dedicação nada mais foi que: Uma vaga para os Jogos Pan-Americanos. Mas essa história é só o começo de muitas alegrias e emoções.


Mauro e Tulum na seletiva para os Jogos Pan-Americanos

H.W.B: Além do Pan, quais são seus planos para o Tulum daqui para frente e qual é a sua meta como profissional?
M.J:
Tulum vai seguir para os Jogos Pan-Americanos agora em outubro, após esta viagem focaremos nosso treinamento nas seletivas e na conquista de uma vaga na equipe para os Jogos Olímpicos em Londres em 2012. Paralelamente a isso, como o Centro de Treinamento está começando, planejamos ter alunos competindo em todos os níveis de Adestramento, seguindo nossa metodologia, sempre respeitando cada cavalo conforme a sua idade, preparo físico, maturidade e objetivo particular de cada aluno.

H.W.B: Quais são as maiores dificuldades para quem quer competir na modalidade Adestramento?
M.J:
A maior dificuldade é encontrar um profissional adequado para ser o técnico do conjunto (cavalo/cavaleiro). Esta escolha começa antes mesmo da compra do cavalo. É necessário estudar o profissional, vê-lo em provas, ver como é feito o treinamento, estudar muito antes de dar qualquer passo, ver quanto tempo o profissional compete com seu melhor cavalo e também verificar como os alunos deste profissional se saem nas competições e qual a periodicidade que trocam de cavalo. Se há uma troca constante de cavalo seria interessante estudar o motivo destas trocas acontecerem constantemente.
Enfim, estudar o método de treinamento e só então optar de maneira consciente pelo que melhor se encaixa para cada um. Deve-se tomar muito cuidado com modismos e estrelismos. Nem sempre o que está em evidência hoje seja o melhor em curto prazo. É necessário saber quais os cavalos e alunos passaram pelo profissional e como foi a história de cada um. Depois de escolher é importante persistir no método escolhido, por mais difícil que possa ser no primeiro momento. Montar à cavalo é igual a dirigir ou escolher uma roupa: cada um tem um estilo e se você vai iniciar precisa escolher o caminho à seguir.


Durante apresentação na Sociedade Hípica Brasileira - RJ


BATE BOLA:

Música: Sertanejo.
Hobby: Futebol.
Ídolo: Ayrton Senna.
Cavalo: Tulum.
Pessoa: Pai.
Competição: Última seletiva para os Jogos Pan-Americanos onde ganhamos os três dias de prova.
Presente: Jogos Pan-Americanos.
Futuro: Sucesso do Centro de Treinamento.
Mauro: Determinado.

 

* Entrevista feita por Priscila Thomazelli. Fotos enviadas por Mauro Pereira Junior.