Nascido na França em 1950, Dominique Barbier começa sua carreira equestre em uma Escola Jesuíta em Poitiers. Aos 15 anos ingressou no Centro Equestre Crabbett Park em West Sussex, Inglaterra, onde tira seu certificado de Instrutor Assistente da British Horse Society (BHSAI).
Em 1972, Dominique volta à Inglaterra para cursar a renomada Talland School of Equitation em Cirencester, sob a supervisão da Sra Molly Siverright, FBHS, DBHS e recebe o seu certificado com o BHSI. Pelos próximos oito anos, Dominique apura suas habilidades equestres em um grande número de centros altamente considerados por toda a Europa, montando em várias disciplinas, incluindo: Salto, CCE, Adestramento e Cross-Country.
Dominique baseou-se então em Portugal por dois anos, onde estudou com o lendário Mestre Nuno Oliveira. Durante o internato com Mestre Nuno, as habilidades equestres de Dominique foram realçadas, aperfeiçoando sua “atitude mental e física”. Esta experiência foi o momento de definição que inspirou a crença de Dominique em manter o cavalo “leve e feliz”, conhecida como “la belle legerete a la Française”.
Em Portugal Dominique comprou Dom Pasquale, Dom Giovanni e Dom Jose - os três garanhões Lusitanos que ele treinou pela primeira vez em “Alta Escola”. Notavelmente Dom Giovanni aprendeu também o galope “terra a terra” e o recuar ao Galope!
Desde sua imigração para os Estados Unidos, os ensinamentos e a paixão de Dominique pela “Arte do Adestramento” atingiram milhares de pessoas por todo o país assim como no Norte Africano, na Europa, na Ásia e no Brasil. Sua avançada filosofia, focalizando na importância de uma comunicação mental e na compreensão da natureza do cavalo, tem sido praticada agora, há mais de 40 anos.
Quando foi publicado pela primeira vez, em inglês, seu livro aclamado pela crítica, “Adestramento para Nova Era”, foi revolucionário dentro do mundo do adestramento com sua análise do psicológico e bem estar do cavalo, assim como nos fundamentos do treinamento. Agora em sua quinta edição, “Adestramento para Nova Era” foi publicado também em francês, português e em alemão. Publicado em 2005, somente em inglês o “Compêndio do Treinamento do Adestramento” de Dominique continua a ser escolhido como manual para milhares de cavaleiros de todos os níveis.
Em 2009 uma magnífica edição intitulada “Meditação para Dois”, em parceria com a escritora e fotógrafa Keron Psillas - uma viagem à escola da leveza que transcende o simples treinamento do cavalo. Seu próximo empreendimento literário, uma releitura de “Souvenirs” (publicado pela primeira vez em 1994) capturará muitos anos de conhecimento, ilustrados por imagens dos cavalos que treinou, e anotações de suas aulas.
Uma série de premiados vídeos/DVD’s de treinamento de Dominique impacta positivamente milhares de cavaleiros, que não podem montar com ele e que podem começar sua viagem “ao lado leve da equitação.” Além de ensinar por todo o mundo, Dominique passa também muito tempo no Brasil, onde sua associação com criadores de Lusitano permite que vivencie ainda mais outra de suas paixões “O Cavalo Lusitano”.

 

 

Horse World Brasil: O senhor e sua esposa têm vindo ao Brasil para dar clínicas há muitos anos. Com isso os senhores têm acompanhado todo o desenvolvimento e crescimento do Adestramento e do Cavalo Lusitano aqui. O que o senhor acha a respeito deste crescimento? O senhor acha que estamos no caminho certo?
Dominique Barbier:
Acredito que as competições de Adestramento (Dressage) no Brasil estão indo muito bem. Parece que tivemos um número aproximadamente de 30 conjuntos inscritos nas seletivas para os Jogos Pan-Americanos e isso é um número muito grande de concorrentes. Para uma competição é realmente um número muito impressionante para qualquer país. Eu gostaria mesmo é de ver e acompanhar um pouco mais a maneira como estes cavalos estão sendo treinados e preparados para este tipo de competição e também se estes cavaleiros estão realmente treinando estes cavalos de forma correta.

HWB: Debra e o senhor ministram várias clínicas no Brasil. Qual a frequência destas clínicas e como elas funcionam?
DB:
Sempre estamos tentando ensinar durante as clínicas que, quando o cavaleiro está montando, o mais importante não é a atitude física e sim a atitude mental que o mesmo tem junto ao seu cavalo. Como todos deveriam saber cada um monta da forma como cada um é. Isto significa que a visão que cada ginete tem de si mesmo e do cavalo é extremamente importante e interfere de forma direta na relação entre ele e seu cavalo. Porém esta relação entre o cavalo e o cavaleiro é extremamente pessoal. Muitas vezes um cavaleiro tem diferentes idéias e atitudes mentais durante sua montada, o que determina de forma extremamente forte como esta relação entre cavalo e cavaleiro pode ser. Assim, para mim, a parte mental é essencial. É por causa da parte mental que o cavaleiro tem que estar presente e pensando enquanto está montando. Quando o cavaleiro está presente, pensando no que está fazendo e mantendo uma boa relação mental entre o que ele quer e seu cavalo, sua consciência do que está acontecendo e do que está por acontecer é diferente, muito mais saudável e natural para ambos. Então o cavaleiro consciente poderá criar e manter a relação que quiser e imaginar com seu cavalo. Genericamente as clínicas são ministradas em três dias. Nós sempre começamos pela manhã fazendo um trabalho de base que inclui três fases: a primeira é passar o cavalo na guia, desmontado, após isso realizamos o trabalho de chão e em seguida montamos o cavalo. Repetimos a dose no período da tarde, sempre buscando uma atitude mental ideal para o conjunto e pensando em um cavalo “leve e feliz” (a belle légèreté a la Française), em outras palavras, nós ensinamos como ter uma melhor relação com cavalo com a consciência do cavaleiro. Na verdade nós acreditamos que um bom conjunto deve ter uma relação de meio a meio. Tanto o cavaleiro como o cavalo podem se expressar para obter o melhor resultado e ambos devem ouvir o que o outro está expressando. Isso porque montamos sempre com a sensação (sentimento quando estamos montando e temos estabelecida a relação meio a meio entre cavalo e cavaleiro). Isto significa que o importante não é ensinar para a pessoa o que fazer e sim o que ser/sentir, ou como fazer nascer o seu ser/sentir. Quando o ginete está sentando sobre o cavalo, deve sentir o que está acontecendo entre ele e sua montaria. Para mim esta relação é a base de toda a equitação. Damos cerca de 4 a 5 clínicas por ano no Brasil, sempre em picadeiros diferentes. Em cada clínica há cerca de cinco conjuntos.

HWB: Os senhores aceitam em suas clínicas apenas conjuntos de Dressage ou estão abertos para conjuntos de Salto e CCE também?
DB:
Com certeza aceitamos conjuntos de todas as modalidades e séries. Adestramento (Dressage) é a base de todas as demais modalidades equestres. Se o cavalo está bem treinado em Adestramento os resultados do conjunto serão melhores independentemente da modalidade praticada.

HWB: Aqui no Brasil estamos tendo a visita de muitos cavaleiros renomados (profissionais) vindos de outros países para dar clínicas para todos os ginetes, principalmente àqueles que estão competindo visando jogos Pan-Americanos, Copas do Mundo e Olimpíadas. Qual a sua opinião sobre tanta variedade? De fato, os cavaleiros estão em busca de um caminho melhor para obter resultados cada dia mais expressivos em competições para igualar nosso nível aos mais altos níveis exigidos atualmente nos campeonatos mundiais. Como o senhor aconselha a todos os cavaleiros e ginetes do Brasil a encontrarem um caminho que traga resultados mais expressivos, cavalos saudáveis e competindo por muitos anos?
DB:
O mais importante é as pessoas saberem que tipo de treinador elas querem. É muito bom ter tantas opções de clínicas com diversos profissionais aqui, mas é fundamental que cada ginete saiba quem é seu treinador. Não é nada bom sempre estar mudando a linha de treinamento de cada cavalo. Baseado nisso, fica evidente que se um treinador foi escolhido, apenas uma clínica não será suficiente para este conjunto estar dentro desta linha de treinamento. Para esta linha de treinamento ajudar, é necessário continuar a usar o que foi aprendido nela. Para se obter bons resultados, independente da linha de treinamento, o mais importante em primeiro lugar é o cavaleiro ouvir seu cavalo. Cavalos são muito comunicativos, podendo dizer aos seus cavaleiros muitas coisas importantes. Acredito que o melhor treinador é aquele que ouve cavalos, em outras palavras, é aquele que sabe exatamente ouvir, ou sentir os cavalos, ou seja, sentir quando os cavalos estão com raiva ou sonolentos e saber o por que eles são/estão assim. O melhor treinador é aquele que sabe ouvir e treinar os cavalos mantendo-os com uma boa saúde. Para escolher que linha de treinamento seguir, o ginete deve em primei lugar ouvir seu cavalo. Eu repito cavalos são muito comunicativos e devem ser respeitados.

HWB: O que o senhor acha dos cavalos brasileiros? O mestre acha que estamos criando bons cavalos para Dressage ou Salto?
DB:
Bom, com certeza o Brasil está criando cavalos de uma forma muito boa. Brasil é um país extraordinário. Frequento muito o meio do cavalo Lusitano e a qualidade da criação de Lusitanos está cada dia melhor aqui no Brasil. Os Lusitanos brasileiros estão em um nível muito superior e diferente do que os demais Lusitanos, incluindo os de Portugal. O montante, a qualidade e a quantidade da criação nacional são extraordinários. A funcionalidade deles é notável. Foi muito importante que os criadores focassem esta funcionalidade no Lusitano, aliando a uma raça com cavalos maiores, com andaduras elegantes e com a docilidade que o Lusitano sempre trouxe em seu gen. Acredito que os treinadores e ginetes estão precisando se aperfeiçoar mais e ter mais atenção de como iniciar o treinamento destes extraordinários cavalos. É necessário que se pense em cavalos felizes durante a competição. Um cavalo feliz tem um ginete feliz. É por isso que é tão importante focar agora neste ponto para dar continuidade a esta criação tão magnífica que o Brasil tem conseguido. .

HWB: Este ano tivemos uma seletiva para a equipe de Adestramento (Dressage) que irá representar o Brasil nos Jogos Pan-Americanos muito diferente e peculiar. Foram realizadas diversas competições, e após estas provas eram ministradas clínicas com o técnico da seleção. Muitos acharam extremamente estressantes, outros gostaram. O mestre acha esta forma de selecionar os conjuntos boa ou acha que esta maneira pode afetar tanto os cavaleiros quanto os cavalos, resultando em “overtraining” ?
DB:
Como todos sabem, a FEI determina um número mínimo de competições para selecionar a equipe de cada país. Eu realmente não me atentei de como esta seleção estava sendo realizada no Brasil para poder dizer se foi bom ou se houve algum exagero em número de competições e clínicas. Realmente acredito que se o treinamento executado pelo cavaleiro e cavalo é o foco de ambos, em uma linha correta, o número de clínicas e competições não irá resultar em “overtraining”, pois ambos estarão preparados e estas competições e clínicas farão parte do treinamento.

HWB: Que tal agora mudarmos um pouco nosso foco? Ao invés de falarmos de quem está nas séries fortes, vamos falar de quem está começando a montar cavalos. Qual o conselho que o senhor daria para estas pessoas de como escolher: professores, escolinhas, cavalos e linhas de treinamento?
DB:
Esta é uma pergunta difícil, na verdade muito difícil. Acredito que o primeiro passo a se dar é: ESTUDAR! As pessoas precisam estudar como cuidar de um cavalo, e quais as muitas modalidade e maneiras de se treinar um cavalo. Então essas pessoas precisam começar a frequentar competições e assistir, analisando os professores e seus alunos. É muito importante olhar e saber qual a linha de treinamento que o professor está seguindo, se os cavalos treinados e montados por este profissional estão felizes ou estressados, olhar os resultados tanto do profissional quando dos alunos. Um bom profissional é o que tem alunos com bons resultados e ganhando dele próprio.

HWB: Mestre Dominique, o senhor gostaria de deixar algum recado, alguma mensagem em especial para nossos leitores?
DB:
Como todos vocês sabem, estamos vivendo agora em uma Era extremamente importante. A modalidade chamada de Dressage, aqui no Brasil, conhecida como Adestramento, está passando por profundas modificações em todo o Mundo. Nós temos o mundo de competições de Adestramento (Dressage) e o mundo do Adestramento Clássico. É muito importante saber e enxergar que o que vemos hoje em competições NÃO É o que chamamos de Adestramento / Dressage. É necessário sentir / ver que há outras qualidades e pensamento por de trás dessa outra competição. É hora de assisitir e analisar que as regras da FEI NÃO ESTÃO SENDO RESPEITADAS durante as competições de Adestramento por todo o mundo. É hora de exigir que os cavaleiros e ginetes comecem a respeitar estas regras e então poderemos assistir uma competição e chama-la de Adestramento / Dressage. O ponto crucial que todos devem lembrar ao praticar é: Cavalos nos ensinam a pedir sem agressão, como amar sem condições, e como evitar o lado destrutivo da perfeição. Eles nos ensinam a permanecer fiéis às melhores tradições do passado, enquanto expandimos nossa visão para o mundo que criamos.

* Entrevista realizada em Agosto / 2011 por Priscila Thomazelli. Fotos: Arquivo pessoal - Dominique Barbier.